A letra D parece uma das fáceis. Não tem padrões ortográficos malucos como o C ou o G, e o português tem um D perfeitamente reconhecível. Mesmo assim, no inglês americano a letra D é pronunciada de pelo menos quatro maneiras diferentes, e ainda pode desaparecer por completo. Se o seu ladder sai com um /d/ caprichado, se did you vira duas palavras separadas ou se played termina em /t/, qualquer nativo percebe o sotaque na hora. Neste guia passamos por todos os sons da letra D, em ordem de frequência, e terminamos com um fluxograma de decisão e um teste rápido.
1. O som padrão: /d/ (oclusiva alveolar sonora)
Na maior parte das vezes, D é /d/: day, do, dog, red, bad, under, idea. O detalhe importante é onde a língua encosta. No inglês a ponta da língua toca a crista alveolar, aquela região rugosa logo atrás dos dentes de cima, e não os dentes em si. O D do português é dental: a língua encosta na parte de trás dos dentes superiores. A diferença parece pequena, mas somada a outros hábitos faz a palavra inteira soar estrangeira. Diga day e sinta a ponta da língua pousar um pouco mais atrás do que em dia.
Há uma armadilha que é especialmente brasileira: em boa parte do Brasil, D antes de I vira /dʒ/ (dia soa como djia). No inglês isso nunca acontece automaticamente: dinner, dish e did começam com um /d/ limpo, sem chiado. Se você diz djinner, o ouvinte ouve outra consoante.
O segundo detalhe é a sonoridade no fim da palavra. Na fala cuidada do inglês americano, o D final continua sonoro: bad não é bat, bed não é bet, ride não é write. A vogal antes de um D sonoro também fica visivelmente mais longa. O erro clássico do falante de português é acrescentar uma vogal de apoio: bad vira badgy, good vira goodgy, porque em português nenhuma palavra termina em D. Mantenha a vogal longa, deixe as cordas vocais vibrarem até a língua encostar e solte o D de leve, sem explosão de ar e, principalmente, sem vogal extra.
2. O flap: /ɾ/ entre vogais
Esse é o som que mais surpreende. Quando o D fica entre duas vogais e a sílaba seguinte é átona, os americanos não fazem uma oclusão completa. A língua apenas dá um toque rapidíssimo na crista alveolar. O resultado é o flap /ɾ/, o mesmo som do T de butter ou water e, boa notícia, praticamente idêntico ao R fraco de cara ou caro.
- ladder /ˈlæɾɚ/ soa igual a latter
- medal /ˈmɛɾəl/ soa igual a metal
- body, ready, study, idea, video, Canada, model, wedding
O flap também acontece entre palavras: did it vira /ˈdɪɾɪt/, made a vira /ˈmeɪɾə/, had a vira /ˈhæɾə/, need it vira /ˈniːɾɪt/. A regra: o D precisa ser seguido de vogal, e essa vogal precisa ser átona. Se a sílaba seguinte carrega o acento, o D continua um /d/ completo: adopt, address (o verbo), adult.
3. D + Y = /dʒ/ (palatalização)
Quando /d/ é seguido do som /j/ (o Y de yes, muitas vezes escrito U ou I em sílabas átonas), os dois se fundem em /dʒ/, o J de judge, exatamente o som do seu dia carioca. Dentro das palavras isso é fixo e aparece em qualquer dicionário:
- soldier /ˈsoʊldʒɚ/
- education /ˌɛdʒəˈkeɪʃən/
- gradual /ˈɡrædʒuəl/
- individual /ˌɪndəˈvɪdʒuəl/
- procedure /prəˈsiːdʒɚ/
- schedule /ˈskɛdʒuːl/ (americano; os britânicos dizem /ˈʃɛdjuːl/)
Entre palavras acontece a mesma coisa na fala relaxada, sempre que uma palavra terminada em D é seguida de you ou your: did you vira /ˈdɪdʒə/, would you vira /ˈwʊdʒə/, had your vira /hædʒɚ/, could you vira /ˈkʊdʒə/. Não é preguiça: é a pronúncia normal de uma conversa, e usá-la deixa o seu inglês muito mais fluente. Aqui o brasileiro tem vantagem, porque o som já existe na boca; o segredo é usá-lo só onde o inglês usa.
4. A terminação -ED: três sons
A terminação de passado e particípio -ed é escrita com D, mas pronunciada de três maneiras, dependendo do último som do verbo base:
- /d/ depois de qualquer som sonoro (vogais, /b, ɡ, v, ð, z, ʒ, dʒ, m, n, ŋ, l, r/): played, called, loved, rained, agreed, jogged. Sem sílaba extra.
- /t/ depois de som surdo (/p, k, f, θ, s, ʃ, tʃ/): walked, stopped, laughed, missed, washed, watched. Sem sílaba extra, e a letra D é pronunciada literalmente como T.
- /ɪd/ depois de /t/ ou /d/: wanted, needed, started, decided, waited. Só aqui aparece uma sílaba a mais.
O erro mais comum é ler o E sempre: wal-ked, pla-yed, três sílabas onde só existem duas, muitas vezes ainda com aquele -edgy no final. Só os verbos terminados em -ted ou -ded ganham sílaba. Em todos os outros, a terminação é uma consoante rápida colada no fim.
5. O D mudo
Um pequeno grupo de palavras elimina o D por completo, sempre ou na fala informal:
- Wednesday /ˈwɛnzdeɪ/: o primeiro D é sempre mudo (duas sílabas, não três)
- handsome /ˈhænsəm/ e handkerchief /ˈhæŋkɚtʃɪf/: sempre mudo
- sandwich /ˈsænwɪtʃ/: mudo na fala informal
- grandmother, grandpa, grandfather: normalmente /ˈɡrænmʌðɚ/, /ˈɡræmpɑː/ na conversa
Repare no padrão: o D está entre um N e outra consoante. Esse é exatamente o ambiente da próxima regra.
6. D apagado em encontros consonantais (supressão de T/D)
Quando o D é a consoante do meio de um encontro consonantal, sobretudo no fim de uma palavra seguida de outra consoante, os americanos costumam apagá-lo: old man vira /oʊl mæn/, kind of vira /ˈkaɪnə/ (é daí que vem kinda), friends vira /frɛnz/, hands vira /hænz/, blind spot vira /blaɪn spɑːt/. A supressão é opcional, mais comum na fala rápida, e quase nunca acontece quando a palavra seguinte começa com vogal (old apple mantém o D e ainda o liga: /oʊl dæpəl/). Você não precisa apagar o D, mas precisa reconhecê-lo ao ouvir. Aliás, apagar o D é uma solução muito melhor do que enfiar uma vogal: frenz soa nativo, frendjis não.
7. DG e DGE: /dʒ/
A combinação DG (quase sempre DGE no fim da palavra) é simplesmente a forma de escrever /dʒ/ depois de vogal breve: judge, bridge, edge, badge, fudge, knowledge, budget. Não existe um /d/ seguido de /ʒ/: é um som só. Compare badge /bædʒ/ com bad /bæd/: mesma vogal, consoante final diferente. Cuidado para não pronunciar bad como badge, que é justamente o que acontece quando o D final ganha aquele chiado de dia.
8. D versus TH sonoro /ð/
Não é um som da letra D, mas é o contraste que estraga o D da maioria dos alunos. O português não tem /ð/, então they vira day e there vira dare. A chave é a posição da língua: para /d/ a ponta toca a crista atrás dos dentes; para /ð/ a ponta fica levemente entre os dentes e o ar continua passando. Pratique estes pares mínimos:
- day /deɪ/ versus they /ðeɪ/
- dare /dɛr/ versus there /ðɛr/
- breed /briːd/ versus breathe /briːð/
- den /dɛn/ versus then /ðɛn/
- doze /doʊz/ versus those /ðoʊz/
Tabela resumo
| Som | Contexto | Exemplos |
|---|---|---|
| /d/ | Padrão: início de palavra, antes de vogal tônica, fim de palavra (continua sonoro) | day, dog, adopt, bad, red |
| /ɾ/ (flap) | Entre vogais, com sílaba átona depois; também entre palavras | ladder, body, ready, did it, made a |
| /dʒ/ | D + som Y, dentro da palavra e entre palavras | soldier, education, gradual, did you, would you |
| /d/ /t/ /ɪd/ | Terminação -ED depois de som sonoro / surdo / t, d | played, walked, wanted |
| mudo | Entre N e outra consoante em certas palavras | Wednesday, handsome, sandwich, grandma |
| apagado | Encontro final antes de outra consoante (informal) | old man, kind of, friends |
| /dʒ/ | Grafia DG, DGE | judge, bridge, budget |
Fluxograma de decisão rápido
- É a grafia DG ou DGE? Diga /dʒ/ (judge). Pronto.
- É a terminação -ED de um verbo? Olhe o som anterior: surdo dá /t/, /t/ ou /d/ dá /ɪd/, qualquer outro dá /d/.
- O D é seguido de um som Y (-dier, -dual, -dure, -dule ou a palavra you/your)? Diga /dʒ/.
- O D está entre N e outra consoante em Wednesday, handsome, handkerchief, sandwich, grand-? Mudo.
- O D está entre duas vogais com sílaba átona depois (inclusive entre palavras)? Faça o flap: /ɾ/, como o R de cara.
- O D fecha um encontro consonantal antes de outra consoante na fala rápida? Pode cair; você escolhe manter ou apagar.
- Todo o resto: um /d/ sonoro e firme com a língua na crista alveolar, sonoro também no fim da palavra e sem vogal extra.
Prática: teste rápido
Leia cada palavra em voz alta e decida qual som de D ela contém: /d/ completo, flap /ɾ/, /dʒ/, /t/, /ɪd/ ou mudo.
- model
- handsome
- graduate
- washed
- landed
- adore
- bridge
- would you
- loved
- rider
Respostas:
- model: flap /ˈmɑːɾəl/
- handsome: D mudo
- graduate: /dʒ/ /ˈɡrædʒueɪt/
- washed: /t/
- landed: /ɪd/
- adore: /d/ completo (a sílaba seguinte é tônica)
- bridge: /dʒ/
- would you: /dʒ/ na fala relaxada
- loved: /d/
- rider: flap /ˈraɪɾɚ/ (soa como writer)
Quer se aprofundar? Leia os guias completos sobre o flap que parece o R do português, sobre a palatalização de D + Y, sobre a regra da terminação -ED e sobre a supressão de T/D, e treine o contraste D versus TH. Este artigo faz parte de uma série por letras: veja também os sons das letras S, C, G e O, e pratique as terminações -ED e as consoantes com áudio.