Se você já disse "sink" querendo dizer "think", ou percebeu que "Brazil" na sua boca vira "Braziw", saiba que não é falta de esforço. O português e o inglês simplesmente usam inventários de consoantes diferentes, e algumas consoantes do inglês americano não existem no português brasileiro.
Desde bebê, seu cérebro aprendeu a ignorar diferenças de som que não importam em português. Quando aparece uma consoante que o português não tem, a mente substitui automaticamente pelo som mais parecido do seu idioma, sem avisar. Por isso repetir mil vezes não resolve: você repete a substituição. A saída é aprender a posição exata da boca para cada som novo.
Este artigo é o companheiro do nosso guia sobre as 5 vogais do inglês que não existem em português. Agora é a vez das consoantes, sempre com o inglês americano como referência.
Boa notícia: o português já te deu meio caminho
Antes da lista de dificuldades, uma vantagem enorme: o português brasileiro já tem vários sons que atormentam falantes de outras línguas. Você já faz /z/ (a s de "casa"), /ʒ/ (a j de "jogo"), /ʃ/ (o ch de "chave") e /v/ (a v de "vaca"). Enquanto um falante de espanhol sofre com "very" e "zoo", você pronuncia essas palavras sem pensar. Sua lista de sons realmente novos é curta; o problema é que os poucos que faltam aparecem o tempo todo.
As consoantes do inglês que não existem em português
/θ/ e /ð/: os sons do TH (think, this)
As fricativas dentais de "think" /θ/ e "this" /ð/ estão ausentes na maioria das línguas do mundo, e o português está nesse grupo. O brasileiro costuma substituir por /t/ e /d/ ("tink", "dis") ou por /s/ e /z/ ("sink", "zis"), e cada substituição pode criar outra palavra do inglês: sink (pia) não é think (pensar).
Posição da boca: coloque a ponta da língua de leve entre os dentes da frente, ou encostando atrás dos dentes superiores, e deixe o ar passar pela fresta sem parar. Em /θ/ (think, bath) as cordas vocais ficam desligadas; em /ð/ (this, mother) elas vibram, e você sente o zumbido com a mão na garganta. No começo, exagere: deixe a língua bem visível no espelho. O que parece ridículo para você soa apenas claro para quem ouve.
/ɹ/: o R americano (red, car)
O R americano não é o r de "caro" (um toque rápido da língua) nem o rr de "carro" (que na maioria do Brasil soa como um h forte). Na /ɹ/ americana, a língua não toca em nada.
Posição da boca: puxe a língua para trás e para cima, agrupada no centro da boca, com a ponta levemente curvada (para cima ou para baixo, as duas variantes funcionam) e os lábios um pouco arredondados. Sustente o som como um motor: "rrrr" contínuo, sem nenhum toque. Depois emende numa vogal: "rrrr...ed". Atenção especial ao R no fim de sílaba: em "car" e "work" o americano pronuncia o /ɹ/ de verdade, não uma vogal alongada.
O L escuro final: por que Brazil vira Braziw
O português brasileiro vocaliza o l no fim de sílaba: "Brasil" termina em som de u, "sal" soa como "sau". O inglês faz o contrário: o l final de "feel", "well" e "Brazil" é um l escuro, pronunciado com a língua encostada no céu da boca.
Posição da boca: no fim de "feel", encoste a ponta da língua na crista atrás dos dentes superiores e mantenha o contato enquanto o fundo da língua se eleva um pouco. A prova do espelho: se seus lábios se arredondarem no final da palavra, você fez um w. Diga "fee" e termine tocando a língua nos alvéolos: "fee...L". O contato físico da ponta da língua é obrigatório.
/ŋ/ final: o fim de sing sem G e sem nasalizar a vogal
O português resolve o encontro de vogal com n nasalizando a vogal: em "sim" e "lã" não há consoante final de verdade, a vogal é que sai pelo nariz. O inglês "sing" /sɪŋ/ é diferente: a vogal /ɪ/ é oral e limpa, e depois vem uma consoante real, o /ŋ/, sem nenhum g atrás.
Posição da boca: o fundo da língua sobe e encosta no véu do paladar (como no meio de "manga"), a ponta fica embaixo, atrás dos dentes inferiores, e o ar sai pelo nariz. Diga "sing" e congele o último som: ele deve poder continuar enquanto houver ar, sem clique final. Se sair "sin-gui", você adicionou um g e uma vogal extra.
/h/ como fonema independente (hungry, house)
Aqui a notícia é boa: o som existe na sua boca. Se você fala como um carioca, o r de "rio" é praticamente o /h/ do inglês; na maior parte do Brasil, o rr de "carro" também chega perto. O que o português não tem é o /h/ como fonema independente, escrito com h e capaz de diferenciar palavras. Por hábito de leitura, o brasileiro tende a ignorar o h escrito ("ave" em vez de "have") ou a pronunciá-lo forte demais.
Posição da boca: quase nenhuma. Abra a boca na forma da vogal seguinte e solte um sopro suave, como quem embaça um espelho, antes de ligar a voz. Sem raspar a garganta. Omitir o h troca a palavra: hungry (com fome) vira angry (bravo), hair vira air. Temos um guia inteiro sobre o H aspirado do inglês para brasileiros.
A armadilha extra: a vogal que o português adiciona no final
Além dos sons que faltam, existe um hábito do português que sabota as consoantes finais do inglês: a vogal epentética. O português brasileiro não gosta de consoante oclusiva no fim da palavra, então a boca acrescenta um "i" de apoio: "big" vira "biggie", "internet" vira "internetchi", e o t e o d ainda palatalizam ("tchi", "dji"). Em inglês, a consoante final termina seca, sem vogal nenhuma depois.
Treine dizendo a palavra e parando de verdade na consoante: "big." com a boca ainda fechada no /ɡ/. E cuidado com o efeito oposto: cortar demais o final e desvozear o g, transformando "bag" em "back". Explicamos esse segundo perigo em detalhe no guia sobre a armadilha da desonorização final (bag, não back).
Tabela resumo
| Som | Exemplo | O que o português faz | Chave para produzir |
|---|---|---|---|
| /θ/ | think | Substitui por t ou s | Língua entre os dentes, sem voz |
| /ð/ | this | Substitui por d ou z | Língua entre os dentes, com voz |
| /ɹ/ | red | Toque de língua (caro) ou h forte (carro) | Língua atrás e para cima, sem tocar nada |
| /l/ escuro final | feel | Vocaliza para w (Braziw) | Ponta da língua encosta atrás dos dentes |
| /ŋ/ final | sing | Nasaliza a vogal (sim, lã) | Vogal limpa, depois consoante nasal, sem g |
| /h/ | hungry | Só como alofone do r (rio) | Sopro suave, e nunca omitir o h escrito |
Estratégia de 4 passos para qualquer som novo
- Aprenda primeiro a posição da boca. Descubra onde ficam língua, lábios e dentes, e se há voz ou não. Use um espelho e produza o som isolado, devagar, antes de colocá-lo em palavras.
- Exagere sem vergonha. Língua bem para fora no th, contato firme no l final, /ɹ/ longo como motor. O exagero grava o som na memória muscular; depois você reduz ao tamanho natural.
- Treine pares mínimos. Palavras que diferem em um único som (think/sink, feel/few, sin/sing) obrigam ouvido e boca a respeitar o contraste. Se alguém não consegue adivinhar qual você disse, o contraste ainda não existe.
- Grave-se e compare. O ouvido engana em tempo real; a gravação, não. Grave uma frase, ouça um modelo nativo da mesma frase e compare apenas o som alvo. Um minuto honesto de comparação vale mais que uma hora de repetição cega.
Pratique com estas palavras
Cada cartão ataca uma das consoantes deste guia. Ouça o modelo, grave a sua voz e compare.
Seu sotaque é um mapa, não um defeito
Cada substituição que você faz aponta com precisão uma diferença entre o português e o inglês, e isso significa que todas têm conserto. Escolha um ou dois sons da tabela, dedique cinco minutos por dia ao método de 4 passos e dê três semanas. Sons novos parecem impossíveis até o dia em que saem sozinhos.