Numa ligação alguém diz uma palavra que você não consegue captar. Você pegou o formato: duas sílabas, acento na segunda, e um final suave e zumbido. Você começa a listar candidatos, e um deles é uma palavra terminada no som do h inglês.
Não era essa. Nenhuma palavra inglesa termina em /h/. Nenhuma. Esse único dado apaga um ramo inteiro das suas hipóteses em um segundo.
A regra também vale no sentido contrário. Às vezes construímos palavras que não podem existir: uma sílaba que começa com o som final de sing, ou uma palavra fechada com uma /w/ consoante de verdade. Para um nativo elas não são difíceis, são impronunciáveis como inglês.
O inglês não permite qualquer som em qualquer posição. As permissões são sistemáticas e dá para aprendê-las em uma tarde.
As regras
Sons que nunca iniciam uma palavra em inglês
/ŋ/, o som final de sing /sɪŋ/ e long /lɔŋ/, nunca abre uma palavra e, na verdade, nunca abre uma sílaba. Ele existe só no meio e no fim. Também não há nenhum grupo consonantal que comece com ele.
/ʒ/, o zumbido que aparece dentro de measure /ˈmɛʒɚ/, não inicia palavras inglesas nativas. As pouquíssimas que parecem iniciar, como genre /ˈʒɑnrə/, são empréstimos franceses recentes, e muitos americanos as consertam pronunciando /dʒ/.
Aqui você tem uma vantagem clara sobre outros aprendizes: o português tem /ʒ/ em posição inicial, como em janela, gente e jogo. Você produz o som sem esforço. O trabalho, então, não é aprender o som, é aprender onde o inglês o proíbe, e não deixá-lo escapar no início de palavras que pedem /dʒ/, como June /dʒun/ ou job /dʒɑb/.
Sons que nunca fecham uma palavra em inglês
/h/. Nunca. Palavras escritas com h final ou têm letra muda (oh /oʊ/, ah /ɑ/, hurrah /həˈrɑ/) ou têm um dígrafo em que esse h pertence a outro som (sigh /saɪ/, though /ðoʊ/, fish /fɪʃ/, bath /bæθ/).
/w/ e /j/. Essa surpreende, porque now, day e boy se escrevem com W ou Y no fim. Foneticamente não há consoante ali. now é /naʊ/, day é /deɪ/ e boy é /bɔɪ/: cada uma termina em ditongo, uma vogal que desliza em direção a outra posição vocálica e para. Esse deslize é a cauda da vogal, não uma consoante separada.
Para o falante de português brasileiro há duas armadilhas nessa área. A primeira é o apoio vocálico: acrescentar um i depois de consoantes finais, transformando big em bigui e note em notchi. A segunda é a nasalização: fechar uma vogal final como se fosse nasal, o que muda so em algo parecido com som. As duas coisas violam as bordas de palavra do inglês, que exigem consoante final seca ou vogal final aberta e oral.
O atalho do th, a regra mais útil desta página
O inglês tem dois sons th: o surdo /θ/ (think, thin, thank, three) e o sonoro /ð/ (this, that, they). No início de palavra eles se dividem por gramática, não por significado.
- /ð/ só inicia palavras funcionais: the, this, that, these, those, they, them, their, there, then, than, though, thus. Essa lista está quase completa.
- /θ/ inicia palavras de conteúdo: think, thing, thin, thank, three, throw, thunder, theater, theory, thousand.
Se uma palavra com th no começo da frase é cola gramatical (artigo, pronome, demonstrativo, conector), o th é sonoro. Se carrega significado, é surdo. Você nunca mais precisa adivinhar, nem ao falar nem ao tentar identificar uma palavra ouvida pela metade.
/r/ e /l/: permitidos nas duas bordas, mas não são o mesmo som
Os dois abrem e fecham palavras livremente, e os dois mudam de forma conforme a borda. O L claro inicial (leaf /lif/) tem a ponta da língua no alto e o corpo à frente. O L escuro final (feel /fil/) puxa o dorso para trás e soa quase como vogal, e nunca vira u como no português (feel não é fiu). O /r/ inglês inicial (read /rid/) é consoante com arredondamento de lábios; no final funde-se com a vogal e vira cor de r: car /kɑr/, bird /bɝd/, butter /ˈbʌtɚ/.
A assimetria que vale nomear
/h/ abre palavras mas nunca as fecha. /ʒ/ fecha palavras mas nunca as abre: beige /beɪʒ/, rouge /ruʒ/, garage /ɡəˈrɑʒ/, massage /məˈsɑʒ/, prestige /prɛˈstiʒ/. São espelhos exatos, e nada nos próprios sons explica isso. Esse é o ponto: o que está restrito é a posição, não o som. E note o detalhe prático: nessas palavras o /ʒ/ final é sonoro e seco, sem i depois.
Bordas de grupos: o início é rígido, o fim é livre
Uma palavra inglesa pode começar com no máximo três consoantes, e quando isso acontece a forma é fixa: /s/ mais oclusiva surda mais líquida ou semivogal. Isso dá exatamente cinco grupos: /spr/ (spring), /str/ (street), /skr/ (scream), /skw/ (square), /spl/ (splash). Não existe um sexto. Se você ouviu três consoantes no início, a primeira era /s/.
Os finais são muito mais livres: sixths /sɪksθs/, texts /tɛksts/, twelfths /twɛlfθs/, glimpsed /ɡlɪmpst/. Quatro consoantes depois da vogal é normal, porque o plural /s z/, o passado /t d/ e a terceira pessoa se empilham sobre uma sílaba já fechada. É exatamente aqui que o apoio vocálico do português aparece com força, criando sílabas extras que o inglês não tem.
Por que as regras existem
Parte da explicação é articulatória. /ŋ/ exige o dorso da língua contra o palato mole com a passagem nasal aberta, uma posição à qual a boca chega sozinha depois de uma vogal, mas da qual é difícil partir do zero. /h/ não passa de ar a caminho de uma vogal, então sem vogal depois não sobra nada para ouvir.
Outra parte é acidente histórico. O /ʒ/ entrou no inglês há poucos séculos, sobretudo pelo francês, e sobretudo no meio ou no fim das palavras. O português abre palavras com ele, em já. O inglês nunca criou o hábito.
E aqui está a ideia que organiza tudo: são restrições sobre bordas de sílaba, não sobre os sons. /ŋ/ não é difícil de produzir, está proibido em uma casa do tabuleiro.
O sistema de relance
| Som | Pode iniciar palavra? | Pode terminar? | Exemplo | Observação |
|---|---|---|---|---|
| /h/ | Sim | Nunca | house /haʊs/ | um h final na escrita é mudo ou parte de um dígrafo |
| /ŋ/ | Nunca | Sim | sing /sɪŋ/ | não inicia sílaba nem forma grupo inicial |
| /ʒ/ | Só em empréstimos | Sim | garage /ɡəˈrɑʒ/ | o espelho exato de /h/ |
| /w/ | Sim | Nunca | wet /wɛt/ | now /naʊ/ termina em ditongo, não em /w/ |
| /j/ | Sim | Nunca | yes /jɛs/ | day /deɪ/ termina em ditongo, não em /j/ |
| /ð/ | Só palavras funcionais | Sim | the /ðə/, breathe /brið/ | th sonoro inicial indica palavra gramatical |
| /θ/ | Sim, palavras de conteúdo | Sim | think /θɪŋk/, bath /bæθ/ | livre nas duas bordas |
| /r/ | Sim | Sim | red /rɛd/, car /kɑr/ | consoante no início, vogal com cor de r no final |
| /l/ | Sim | Sim | leaf /lif/, feel /fil/ | L clara no início, L escura no final |
| /z/ | Sim, mas raro | Sim, muito comum | zoo /zu/, dogs /dɔɡz/ | os plurais enchem o idioma de /z/ final |
| /tʃ/ e /dʒ/ | Sim | Sim | church /tʃɝtʃ/, judge /dʒʌdʒ/ | nenhuma restrição de posição |
| Borda de três consoantes | Só /spr str skr skw spl/ | Quase tudo | street /strit/, texts /tɛksts/ | as terminações gramaticais se empilham só no final |
Exceções e casos limite
Empréstimos e nomes próprios quebram as proibições
Ngugi, Nguyen, Zhang, genre, Jacques: entram no inglês com formas que o inglês não fabrica. Repare no que os falantes fazem com elas. Nguyen costuma virar /wɪn/ ou /ˈnujɛn/, Zhang costuma virar /dʒɑŋ/ e genre oscila entre /ˈʒɑnrə/ e /ˈdʒɑnrə/. O conserto é a prova da regra.
As interjeições ignoram o sistema
Huh, uh-huh, uh-oh, shh, mm-hmm, psst. Algumas terminam num som aspirado ou glotal que nenhuma palavra real admite, e outras não têm vogal nenhuma. Interjeições ficam fora da fonologia: são ruídos com significado, não palavras.
Siglas e invenções podem forçar formas proibidas
Uma palavra montada a partir de letras ou inventada para uma marca pode cair numa forma que o sistema nativo jamais geraria, e ainda assim os falantes a produzem. A regra descreve o vocabulário herdado, não os limites da boca humana.
O /j/ britânico e o americano depois de alveolares
News, tune, duke: britânico /njuz/, /tjun/, /djuk/ contra americano /nuz/, /tun/, /duk/. É uma diferença real, mas acontece dentro do início da sílaba e não toca as bordas. Nenhuma variedade do inglês fecha palavra com /j/ nem abre uma com /ŋ/.
O ganho prático quando você não capta uma palavra
As regras de posição são um filtro. Passe o fragmento que você ouviu por elas e a lista de candidatos despenca.
- A palavra terminava num som sibilante ou zumbido, então não era /h/. Seus candidatos são /s z ʃ ʒ f v θ ð/ e mais nenhum.
- A frase começava com th e você ouviu vibração, então é uma das cerca de doze palavras funcionais: the, this, that, they, there, then, though.
- Algo parecia começar com o som final de sing, então era nome próprio, empréstimo, ou a cauda da palavra anterior emendando nesta.
- Você ouviu três consoantes no início, então a primeira era /s/ e a segunda era /p/, /t/ ou /k/.
- A palavra terminava em algo parecido com i ou u, então ela acaba em vogal e a palavra seguinte vai emendar direto nessa vogal.
O exercício: cinco passos em voz alta
- Diga sing /sɪŋ/, segure o /ŋ/ final por dois segundos e solte-o direto numa vogal /ɑ/. Você acabou de produzir uma sílaba que o inglês proíbe. Sinta como o arranque é estranho: essa é a proibição morando na sua boca.
- Diga measure /ˈmɛʒɚ/, depois garage /ɡəˈrɑʒ/ e beige /beɪʒ/. Mantenha o zumbido sonoro até o fim e não acrescente um i depois dele. Depois comece uma palavra com esse som, como você faz em janela, e confirme que a restrição é de posição, não física.
- Elimine o /h/ final. Diga oh /oʊ/ e ah /ɑ/ sem deixar ar escapar depois da vogal, e sem nasalizar. Se ouvir um sopro ou um m fantasma, corte.
- Ditongos, não consoantes. Diga now /naʊ/, day /deɪ/, boy /bɔɪ/ deixando cada final aberto e relaxado. Depois emende: "now and then", "day off", "boy is here". O deslize conecta sem tensão e sem consoante extra.
- O teste do th. Leia em voz alta: "The three things that they thought about this Thursday". Cada palavra funcional leva /ð/ e cada palavra de conteúdo leva /θ/. Vá devagar e confira uma a uma.
Aprenda as bordas e você para de construir palavras impossíveis, além de reconhecer as reais mais rápido. Leve essas proibições para os exercícios em praticar consoantes do inglês e afine o contraste entre /θ/ e /ð/ com a prática de pares mínimos.