Epêntese Vocálica: Por Que Falantes de Línguas Românicas Adicionam Sílabas Extras às Palavras em Inglês

Publicado em 12 de fevereiro de 2026

Você já percebeu que diz "ispeak" em vez de "speak", "filimi" em vez de "film" ou "Facebooki" em vez de "Facebook"? Se sim, você está fazendo algo chamado epêntese vocálica — a inserção involuntária de vogais extras em palavras. Não se preocupe: isso acontece por uma razão linguística muito lógica, e com o conhecimento certo, você pode corrigir esse hábito.

Neste artigo, vamos explorar em profundidade o fenômeno da epêntese vocálica, por que ele é tão comum entre falantes de português brasileiro (e outras línguas românicas), e como você pode treinar sua pronúncia para soar mais natural em inglês.

O Que É Epêntese Vocálica?

A epêntese vocálica é um processo fonológico em que um falante insere uma vogal que não existe na palavra original. Isso acontece porque a estrutura silábica da língua materna do falante não permite certos agrupamentos de consoantes (chamados de clusters consonantais).

Em linguística, existem três tipos principais de epêntese, dependendo de onde a vogal é inserida:

  • Prótese — inserção de vogal no início da palavra
  • Anaptixe (ou epêntese medial) — inserção de vogal no meio da palavra, entre consoantes
  • Paragoge — inserção de vogal no final da palavra

Vamos examinar cada tipo detalhadamente, com foco especial no português brasileiro.

Por Que o Português Brasileiro Favorece a Epêntese?

A resposta está na estrutura silábica. O português brasileiro tem uma fortíssima preferência por sílabas abertas — sílabas que terminam em vogal. O padrão silábico mais comum do PB é CV (Consoante + Vogal):

LínguaEstruturas silábicas comunsExemplo
Português BrasileiroCV, V, CVC (limitado)ca-sa /ˈka.za/ (CV.CV)
InglêsCV, CVC, CCV, CCVC, CCCVC, CVCC...strengths /strɛŋkθs/ (CCCVCCCC)

Observe a diferença: o inglês permite até três consoantes no início de uma sílaba (como em "strengths") e quatro consoantes no final. O português brasileiro quase nunca permite mais de duas consoantes juntas sem uma vogal intermediária.

Quando um falante de PB encontra um grupo consonantal que não existe em português, o cérebro automaticamente insere uma vogal para "consertar" a estrutura silábica. Esse processo é tão automático que muitas vezes o falante nem percebe que está fazendo.

Português Brasileiro vs. Português Europeu

É importante notar que o português europeu (PE) lida com clusters consonantais de maneira diferente do brasileiro. O PE tende a reduzir ou eliminar vogais átonas, criando mais grupos consonantais na fala natural. Por exemplo:

  • PB: "de-por-te" /de.ˈpɔɾ.tʃi/ (3 sílabas claras)
  • PE: "d'sporte" /dɨʃˈpɔɾt/ (vogais reduzidas, clusters tolerados)

Isso significa que falantes de PE geralmente têm menos dificuldade com clusters consonantais em inglês do que falantes de PB, pois já estão acostumados a articular sequências de consoantes sem vogais intermediárias.

Tipo 1: Prótese — Vogal Inserida no Início

A prótese é a inserção de uma vogal antes do primeiro som da palavra. No PB, isso acontece quase sempre com clusters que começam com /s/:

Palavra em inglêsPronúncia correta (IPA)O que brasileiros dizemIPA com prótese
speakspiːk"ispeak"isˈpiːk
schoolskuːl"ischool"isˈkuːl
streetstriːt"istreet"isˈtriːt
smallsmɔːl"ismall"isˈmɔːl
snowsnoʊ"isnow"isˈnoʊ

Por que isso acontece? Em português, nenhuma palavra começa com /s/ + consoante. Palavras cognatas sempre têm uma vogal antes: escola (school), especial (special), estudante (student), espaço (space). Seu cérebro aplica essa regra automaticamente ao inglês.

Pratique palavras com S + consoante no início

Exercício: O Método da Cobra

Este é o exercício mais eficaz para eliminar a prótese:

  1. Faça um som longo de "sssssss" (como uma cobra) por 3-5 segundos.
  2. Sem parar o "s", adicione a próxima consoante: "sssss...p", "sssss...t", "sssss...k".
  3. Adicione o resto da palavra: "sssss...top", "sssss...cool", "sssss...peak".
  4. Gradualmente encurte o "s" até soar natural: "stop", "school", "speak".

A chave é nunca permitir que uma vogal apareça antes do /s/. Se você começar a dizer "i..." ou "e...", pare e recomece com "sssss".

Tipo 2: Anaptixe — Vogal Inserida no Meio

A anaptixe (ou epêntese medial) é a inserção de uma vogal entre duas consoantes dentro de uma palavra. Isso acontece quando o inglês tem clusters consonantais no meio da palavra que não existem em português.

PalavraPronúncia corretaO que brasileiros dizemVogal inserida
filmfɪlm"filimi" ou "filmi"/i/ entre /l/ e /m/
rhythmˈrɪðəm"hítchimi"/i/ adicionado
bottleˈbɑːtəl"bótoli"/o/ inserido
worldwɜːrld"wórildi"/i/ entre /l/ e /d/
askedæskt"askid"/i/ entre /k/ e /t/

Por que isso acontece? Quando o PB encontra clusters como /lm/, /rld/, ou /skt/, que não ocorrem na fonologia do português, o falante automaticamente insere uma vogal para criar sílabas abertas: /fɪlm/ → /fɪ.li.mi/ (três sílabas abertas em vez de uma sílaba fechada).

Pratique palavras com clusters mediais

Exercício: Construção Reversa

Este exercício ajuda a articular clusters mediais sem inserir vogais:

  1. Comece pelo final da palavra: "-lm"
  2. Adicione a vogal anterior: "ilm"
  3. Adicione o início: "film"
  4. Diga a palavra inteira sem pausas: "film" (uma sílaba só!)

Repita com: "world" (wɜːrld — uma sílaba!), "help" (hɛlp — uma sílaba!), "self" (sɛlf — uma sílaba!).

Tipo 3: Paragoge — Vogal Inserida no Final

A paragoge é a inserção de uma vogal após a última consoante de uma palavra. Este é possivelmente o tipo mais comum de epêntese no português brasileiro.

No PB, a grande maioria das palavras termina em vogal. Quando uma palavra inglesa termina em consoante, o cérebro brasileiro adiciona automaticamente uma vogal (geralmente /i/ ou /ɪ/) para "completar" a sílaba:

PalavraPronúncia corretaO que brasileiros dizemVogal adicionada
Facebookˈfeɪsbʊk"Facebooki"/i/ após /k/
hot doghɑːt dɔːɡ"hótchi dógui"/i/ após consoantes finais
bigbɪɡ"bigui"/i/ após /ɡ/
clubklʌb"clubi"/i/ após /b/
hip hophɪp hɑːp"hipi hópi"/i/ após /p/
redrɛd"hedji"/i/ após /d/
stopstɑːp"istópi"prótese + paragoge!

Repare na última linha: "stop" sofre dupla epêntese — prótese ("i" no início) e paragoge ("i" no final) ao mesmo tempo! A palavra de uma sílaba vira três: /is.ˈtɔ.pi/.

Por que isso acontece? O PB tem uma regra fonológica muito forte: sílabas devem terminar em vogal (ou em /s/, /r/, /l/, /n/ em alguns contextos). Consoantes oclusivas (/p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /ɡ/) nunca aparecem no final de sílaba em português nativo. Por isso o falante adiciona /i/ para criar uma sílaba aberta final.

Pratique palavras que terminam em consoante

Exercício: Parada Abrupta

Este exercício treina você a terminar palavras em consoante sem adicionar vogal:

  1. Diga a palavra e segure a consoante final: "bigggg" (mantenha a posição de /ɡ/ sem soltar).
  2. Feche os lábios/língua na posição final e PARE. Não solte ar extra.
  3. Para consoantes oclusivas (/p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /ɡ/): feche o som sem liberar. Isso se chama "unreleased stop" em inglês.
  4. Pratique em sequência: "big" [pare] — "dog" [pare] — "job" [pare] — "red" [pare].

A sensação pode ser estranha no início — como se a palavra ficasse "incompleta". Mas é exatamente assim que falantes nativos de inglês dizem essas palavras!

Tipo 4: Quebrando Clusters Consonantais Finais

Além da paragoge simples, brasileiros frequentemente quebram clusters consonantais finais inserindo vogais entre as consoantes:

PalavraPronúncia corretaCluster finalO que brasileiros dizem
texttɛkst/kst/"tekisti"
nextnɛkst/kst/"nekisti"
factfækt/kt/"fakiti"
desksdɛsks/sks/"deskis"
monthsmʌnθs/nθs/"montis"
sixthsɪksθ/ksθ/"sikisiti"

Palavras como "sixth" /sɪksθ/ representam um desafio extremo: três consoantes seguidas no final da sílaba. O PB não permite nada parecido, então o falante pode inserir até duas ou três vogais para quebrar o cluster.

Pratique palavras com clusters finais

Exercício: Adição Progressiva

Construa clusters finais adicionando uma consoante de cada vez:

  1. "tek" — pratique terminar com /k/ sem vogal
  2. "teks" — adicione /s/ sem vogal intermediária
  3. "tekst" — adicione /t/ para completar "text"

Repita com: "fak" → "fakt" (fact), "nek" → "neks" → "nekst" (next).

Comparação: Estrutura Silábica do Português vs. Inglês

Entender as diferenças fundamentais entre as duas línguas ajuda a compreender por que a epêntese acontece:

CaracterísticaPortuguês BrasileiroInglês
Tipo de sílaba preferidoAberta (CV)Fechada (CVC, CVCC...)
Máximo de consoantes no início2 (pr, tr, bl...)3 (str, spr, skr...)
Máximo de consoantes no final1-2 (s, r, l, ns)4+ (strengths: ŋkθs)
Consoantes oclusivas no finalNão ocorreMuito comum (stop, big, red)
S + consoante no inícioSempre com vogal antesSem vogal (speak, stop)
Palavras terminadas em consoanteRaras (geralmente r, s, l)Extremamente comuns

Essa tabela mostra por que o inglês é um verdadeiro campo minado de epêntese para brasileiros: quase todas as diferenças entre as duas línguas favorecem a inserção de vogais extras.

Padrões Comuns de Epêntese no PB

Vamos resumir os padrões mais frequentes que brasileiros aplicam ao inglês:

Padrão 1: /i/ antes de S + consoante (Prótese)

  • speak → "ispeak"
  • school → "ischool"
  • start → "istart"

Padrão 2: /i/ após consoantes oclusivas finais (Paragoge)

  • big → "bigui"
  • hot → "hótchi"
  • stop → "stópi"

Padrão 3: /i/ entre clusters finais (Anaptixe + Paragoge)

  • text → "tekisti"
  • film → "filimi"
  • desk → "deski"

Padrão 4: Palatalização + Paragoge (/t/ → /tʃi/, /d/ → /dʒi/)

Este é um padrão especificamente brasileiro: quando /t/ ou /d/ aparecem antes de /i/ (incluindo o /i/ da paragoge), eles se palatalizam:

  • hot → "hótchi" (não apenas "hóti")
  • red → "hedji" (não apenas "redi")
  • night → "naitchi"

Isso cria uma pronúncia duplamente diferente da nativa: a vogal extra + a consoante modificada.

Exercícios Práticos Abrangentes

Exercício 1: Pares Mínimos — Com e Sem Epêntese

Pratique dizendo a versão correta (sem vogal extra) e identifique a diferença:

Errado (com epêntese)Correto (sem epêntese)Sílabas
i-SPEAK /is.ˈpiːk/SPEAK /spiːk/2 → 1
fi-LI-mi /fi.ˈli.mi/FILM /fɪlm/3 → 1
bi-GUI /bi.ˈɡi/BIG /bɪɡ/2 → 1
te-KIS-ti /te.ˈkis.ti/TEXT /tɛkst/3 → 1
is-TÓ-pi /is.ˈtɔ.pi/STOP /stɑːp/3 → 1

Observe como a epêntese pode transformar uma palavra de uma sílaba em três. Isso afeta dramaticamente o ritmo natural do inglês.

Exercício 2: Frases Desafiadoras

Leia estas frases em voz alta, prestando atenção especial às palavras marcadas em negrito. Tente não adicionar nenhuma vogal extra:

  1. The students stopped at the street next to the school.
  2. I asked her to check the text about the film.
  3. The big dog jumped and grabbed the stick.
  4. She helped me fix the desk in my small flat.
  5. We walked six blocks in the cold spring breeze.

Exercício 3: Gravação e Comparação

Este exercício é extremamente eficaz para desenvolver consciência da epêntese:

  1. Grave-se dizendo as cinco frases acima.
  2. Ouça a gravação com atenção. Procure por sílabas extras.
  3. Marque cada palavra onde você adicionou uma vogal extra.
  4. Regrave, focando em eliminar as vogais identificadas.
  5. Compare as duas gravações. Você consegue ouvir a diferença?

Exercício 4: Trava-Línguas com Clusters

Pratique estes trava-línguas focados em clusters problemáticos:

  • "Speak spanish to the special spy on the spot."
  • "The strong stranger strolled down the street."
  • "She asked for the sixth text about facts."
  • "A big black bug bit a big black dog."

Mais Palavras para Praticar

Empréstimos do inglês que brasileiros "aportuguesam"

Muitas palavras inglesas usadas no dia a dia brasileiro sofrem epêntese. Pratique a pronúncia original:

Dicas Avançadas para Superar a Epêntese

1. Desenvolva Consciência Fonológica

O primeiro passo é perceber quando você está fazendo epêntese. Muitos falantes nem sabem que estão adicionando vogais extras. Agora que você conhece os três tipos (prótese, anaptixe e paragoge), comece a prestar atenção na sua própria fala.

2. Pratique "Unreleased Stops" (Oclusivas Não Soltas)

Em inglês, consoantes oclusivas no final de palavras frequentemente não são totalmente liberadas — a boca fecha na posição, mas não solta ar. Para praticar:

  • Diga "stop" e feche os lábios no /p/ final. NÃO solte ar depois.
  • Diga "big" e segure a parte de trás da língua no /ɡ/ final. NÃO solte ar.
  • Diga "red" e mantenha a língua atrás dos dentes no /d/ final. NÃO solte ar.

3. Use a Técnica do Espelho

Observe seus lábios no espelho enquanto fala. Se após a última consoante seus lábios se moverem novamente (para formar a vogal /i/), você está fazendo paragoge.

4. Pratique em Contexto, Não Só Palavras Isoladas

É mais fácil evitar epêntese em palavras isoladas do que em conversas reais. Progrida assim:

  1. Palavras isoladas: "stop", "big", "film"
  2. Frases curtas: "big dog", "stop it"
  3. Frases completas: "The big dog stopped at the street."
  4. Conversas livres

5. Shadowing (Sombreamento)

Ouça falantes nativos de inglês e tente repetir exatamente o que eles dizem, no mesmo ritmo. Preste atenção especial ao número de sílabas: se o nativo diz "stop" em uma sílaba e você diz em três, algo está errado.

Resumo: Tabela de Referência Rápida

Tipo de EpênteseOnde ocorreExemploComo corrigir
PróteseInício da palavraspeak → "ispeak"Método da cobra (sssss...)
AnaptixeMeio da palavrafilm → "filimi"Construção reversa
ParagogeFinal da palavrabig → "bigui"Parada abrupta (unreleased stops)
Cluster finalClusters no finaltext → "tekisti"Adição progressiva

Pontos-Chave Para Lembrar

  • A epêntese vocálica é a inserção de vogais extras em palavras e acontece porque o PB prefere sílabas abertas.
  • Existem três tipos: prótese (início), anaptixe (meio) e paragoge (final).
  • O português brasileiro é especialmente propenso à epêntese porque tem forte preferência por sílabas CV.
  • O português europeu lida melhor com clusters porque reduz vogais átonas naturalmente.
  • A paragoge é o tipo mais comum no PB: brasileiros tendem a adicionar /i/ após consoantes finais.
  • A palatalização (/t/ → /tʃi/, /d/ → /dʒi/) amplifica o efeito da paragoge.
  • Pratique diariamente com os exercícios apresentados: método da cobra, construção reversa, parada abrupta e adição progressiva.
  • Grave-se e compare com falantes nativos para desenvolver consciência do problema.
  • Com prática consistente, você vai superar a epêntese e soar muito mais natural em inglês!