Abreviaturas latinas em voz alta: como se dizem e.g., i.e., etc. e et al. em inglês

Publicado em 30 de agosto de 2026

Você está no terceiro slide da apresentação. O tópico na tela diz: Ship the beta to internal teams (e.g., support, sales) by Friday, i.e., before the code freeze. Você lê em voz alta exatamente como está escrito, letra por letra, e a sala esfria um pouco. Alguém pede que você repita a segunda parte.

A sua gramática estava certa. As suas vogais estavam certas. O problema é que você leu uma convenção de escrita como se fosse fala. O inglês escrito é cheio de atalhos que os copistas medievais inventaram para economizar tinta, e quase nenhum deles deve sair da sua boca no formato em que aparece na página.

A regra

No inglês americano falado, a maioria das abreviaturas latinas é lida com o significado em inglês, não como letras e não em latim.

Você vê e.g. e diz for example. Vê i.e. e diz that is. Vê cf. e diz compare. Quatro caracteres no papel viram duas palavras inglesas comuns no ar. A forma escrita é um atalho de escriba; a fala tem a sua própria versão, e nunca houve obrigação de as duas coincidirem.

Uma lista curta quebra essa regra, e outra ainda menor mantém o latim. As duas estão logo abaixo e as duas se memorizam numa tarde. Mas, aplicando só o padrão, você já soará natural quase sempre.

Por que isso é difícil para quem fala português

O português guarda as suas próprias abreviaturas latinas e as trata de outro jeito. Etcétera é uma palavra falada perfeitamente normal em português: você a diz inteira, com vogais claras, e ninguém acha o uso pedante. P. ex. se lê por exemplo, e ou seja faz o trabalho de i.e. Ou seja, o português já tem o reflexo certo de um lado e um hábito perigoso do outro.

O lado certo: ler a abreviatura como frase é exatamente o que o inglês faz. O lado perigoso é a fonética. Ao levar etcétera para o inglês, a sua boca quer manter as vogais portuguesas e o ritmo silábico do português, e o resultado soa como palavra estrangeira dentro da frase inglesa. A forma inglesa é /ɛt ˈsɛtərə/, com vogais relaxadas e a sílaba final reduzida a schwa.

A outra dificuldade é histórica. Os copistas medievais escreviam à mão sobre pergaminho caro. Exempli gratia encolheu para e.g., id est para i.e., nota bene para N.B. A abreviatura existia para poupar espaço, não para ser pronunciada. O inglês herdou as marcas, mas não o hábito latino: quando um leitor americano encontra e.g. no meio de uma frase, o olho reconhece a forma e a voz interna fornece for example sem nenhum passo consciente de tradução.

Grupo um: diga o significado em inglês

Aqui as letras quase nunca saem da sua boca, nem na conversa informal nem no ambiente profissional.

  • e.g. se diz for example /fɚ ɪɡˈzæmpəl/. Soletrar como ee-jee /ˌi ˈdʒi/ acontece, mas soa livresco fora do meio acadêmico.
  • i.e. se diz that is /ˈðæt ɪz/ ou in other words /ɪn ˈʌðɚ ˌwɝdz/. Nunca é ee-eye; a ordem é I e depois E, e invertê-la é um deslize comum.
  • viz. se diz namely /ˈneɪmli/. Praticamente ninguém diz as letras.
  • cf. se diz compare /kəmˈpɛr/ ou see /si/.
  • N.B. se diz note that /ˈnoʊt ðæt/ ou please note /pliz ˈnoʊt/.
  • c. ou ca. se diz around /əˈraʊnd/ ou about /əˈbaʊt/. Uma data escrita c. 1650 se lê around sixteen fifty.

Todas têm algo em comum: cada uma representa uma frase inteira, e cada frase tem um equivalente inglês simples que entra sem atrito na oração. A fala prefere a frase.

Grupo dois: diga as letras

Um punhado de abreviaturas fez o caminho contrário e virou nome de letra na fala. Ninguém as expande.

  • a.m. /ˌeɪ ˈɛm/ e p.m. /ˌpi ˈɛm/, sempre, com o acento na segunda letra. Dizer ante meridiem numa reunião seria teatral.
  • P.S. /ˌpi ˈɛs/ no fim de uma mensagem.
  • AD /ˌeɪ ˈdi/ e BC /ˌbi ˈsi/ para os anos. BC é sempre letras; AD também, mesmo vindo de uma frase latina.
  • a.k.a. /ˌeɪ keɪ ˈeɪ/, três nomes de letra seguidos, com acento no último.

Elas compartilham outra propriedade: grudam em números ou nomes, não em orações, então não existe frase natural para colocar no lugar. Nine ante meridiem não tem ritmo. Nine a.m. tem.

Grupo três: diga como palavra inglesa

Algumas mantiveram o latim, mas esse latim já está totalmente anglicizado, então na prática você está pronunciando uma palavra inglesa.

  • etc. se diz por extenso, et cetera /ɛt ˈsɛtərə/. Nunca se dizem as letras e nunca se diz and etc., porque o et já significa and.
  • et al. é /ɛt ˈæl/ ou /ɛt ˈɑl/, muito frequente na fala acadêmica ao citar trabalhos com vários autores.
  • vs. é versus /ˈvɝsəs/. Em citação jurídica, o v. escrito é muitas vezes lido apenas como v /vi/, como em Brown v Board.

A lista completa

AbreviaturaSignificaComo se dizIPARegistro
e.g.exempli gratiafor example/fɚ ɪɡˈzæmpəl/Serve sempre; letras só no meio acadêmico
i.e.id estthat is / in other words/ˈðæt ɪz/Serve sempre; as letras se confundem
viz.videlicetnamely/ˈneɪmli/A forma escrita é formal; a falada é neutra
cf.confercompare / see/kəmˈpɛr/Escrita acadêmica; em voz alta, em inglês
N.B.nota benenote that/ˈnoʊt ðæt/Soa rígido se soletrado na fala
c. / ca.circaaround / about/əˈraʊnd/Neutro; circa soa formal
etc.et ceteraet cetera/ɛt ˈsɛtərə/Neutro em qualquer registro
et al.et aliiet al/ɛt ˈæl/Fala acadêmica e profissional
vs. / v.versusversus (jurídico: v)/ˈvɝsəs/Neutro; v só em nomes de processos
a.k.a.also known asay kay ay/ˌeɪ keɪ ˈeɪ/Informal ou neutro
a.m. / p.m.ante / post meridiemay em / pee em/ˌeɪ ˈɛm/, /ˌpi ˈɛm/Sempre letras, em todo registro
P.S.post scriptumpee ess/ˌpi ˈɛs/Sempre letras
AD / BCanno Domini / before Christay dee / bee see/ˌeɪ ˈdi/, /ˌbi ˈsi/Sempre letras

Quatro armadilhas para treinar

1. É et cetera, não excetera

O erro mais frequente de todo o conjunto. Surge um /k/ que não existe e sai ecs-cetera. Não há nenhum x na palavra. O encontro consonantal do meio é /t s/: a ponta da língua fecha para o /t/ e solta direto no chiado do /s/, sem que a parte de trás da língua toque em nada. A primeira sílaba é /ɛt/, com a vogal de bet, não a de eat. Diga primeiro em quatro tempos, /ɛt ˈsɛ tə rə/, e depois deixe as duas últimas se fundirem num /tərə/ rápido. Muitos falantes reduzem ainda mais, /ɛt ˈsɛtrə/, e isso é totalmente padrão.

2. a.m. e p.m. levam acento na segunda letra

São /ˌeɪ ˈɛm/ e /ˌpi ˈɛm/, com a batida principal no M. Acentuar as duas letras por igual soa robótico. Além disso elas se ligam ao número anterior: nine a.m. é /naɪn eɪ ˈɛm/, uma única unidade rítmica, sem pausa antes das letras. Treine como se fosse uma só palavra de três sílabas.

3. versus tem duas vogais diferentes e dois sons /s/

É /ˈvɝsəs/. A primeira sílaba, tônica, leva a vogal com cor de r de her, e a segunda, átona, leva um schwa simples: não são a mesma vogal, embora em português você diria vérsus com duas vogais plenas. Os dois esses são /s/, nunca /z/, o que a distingue de verses /ˈvɝsəz/. O acento cai com força na primeira sílaba.

4. i.e. e e.g. soam quase iguais quando ditas como letras

Diga ee-eye e ee-jee numa chamada e quem ouve precisa adivinhar qual foi, e elas significam coisas opostas: e.g. introduz um exemplo parcial, i.e. introduz uma reformulação completa. Errar muda o conteúdo da frase. Essa ambiguidade é o argumento prático mais forte para dizer o significado em inglês, e explica por que for example e that is dominam a fala real.

Exceções e nuances

A fala acadêmica e jurídica soletra sim

Num seminário, numa aula de direito ou numa reunião de laboratório, você vai ouvir ee-jee e ee-eye ditas como letras com naturalidade. É uma convenção de área, não um erro. Se as pessoas ao seu redor dizem as letras, diga também. Fora dessas salas, volte para a frase inglesa.

Terminar uma lista com etc.

Os falantes costumam deixar a voz cair depois de et cetera e a frase se desfaz. A solução é a entonação: dê a et cetera um tom descendente claro e pare. Melhor ainda, feche a lista com and so on, and things like that, ou simplesmente nomeando o último item e parando. Uma lista que termina com decisão soa muito mais segura do que uma que se apaga.

Ler um slide contra falar livremente

Quando você lê um slide, está interpretando texto escrito, e a tentação é vocalizar cada caractere. Faça o contrário: o olho recebe a abreviatura e a boca produz o equivalente falado. A plateia acompanha o significado, e as letras ela já está vendo.

O próprio sistema a.m. e p.m.

Se você cresceu com o relógio de 24 horas, o sistema de 12 horas é uma camada extra de trabalho em cima da pronúncia. Quatorze e trinta precisa virar two thirty p.m. antes de você conseguir dizer. Treine a conversão separadamente, ou vai hesitar no meio da frase e o padrão acentual desmorona.

O exercício: cinco passos em voz alta

  1. Diga et cetera dez vezes devagar, /ɛt ˈsɛtərə/, conferindo que nenhum /k/ aparece. Depois coloque numa lista: Bring a pen, a notebook, et cetera. com um tom descendente firme na última sílaba.
  2. Diga os horários com acento na segunda letra: nine a.m., six p.m., eleven a.m., cada um como uma unidade ligada, /naɪn eɪ ˈɛm/.
  3. Pegue esta frase escrita e fale: Several teams (e.g., support) miss the deadline, i.e., they file late. Diga for example e that is. Não pronuncie nenhuma letra.
  4. Contraste o par em voz alta: versus /ˈvɝsəs/ e depois verses /ˈvɝsəz/, cinco vezes. A diferença está só na consoante final.
  5. Grave-se lendo um parágrafo seu que contenha ao menos três abreviaturas. Escute e marque cada ponto em que você disse uma letra. Releia substituindo cada uma pela frase inglesa e compare o quanto a segunda versão é mais fácil de acompanhar.

A abreviatura é para a página; a frase é para a sala. Quando essa separação virar automática, leve essas formas para a fala encadeada com a prática de pronúncia de palavras e depois coloque-as dentro de frases completas com a prática de frases.

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